Pizzada com Claudio Passamani, do Opus V

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Depois de algum tempo sem Pizzadas, estamos de volta em um papo muito bacana com o Claudio Passamani, endorsee da Ibanez e guitarrista do Opus V, que já apareceu diversas vezes aqui no ProgPizza, incluindo o segundo PizzaTalk. Pude trocar ideias com ele sobre diversos assuntos, desde gostos musicais até a cena do prog atual e o concurso para a escolha do vocalista da banda. Foi uma ótima experiência poder entrevistá-lo. Espero que vocês curtam essa conversa tanto quanto a gente!

Rafa (ProgPizza): Fala, Passamani! Tô muito contente de poder te entrevistar aqui no ProgPizza. Antes de começarmos o papo, tem aquela tradição do blog. Indica uma música pro pessoal ouvir enquanto lê nossa conversa.

Claudio Passamani: Bão, vou indicar um som que não sai do meu aparelho. Karmakanic – Wheel of Life.

Rafa: O Opus V é um projeto relativamente novo e que é uma das minhas grandes apostas pra 2013. Como foi que surgiu a ideia da banda?

Passamani: Na verdade nem é tão novo. Metade dessas musicas foram compostas entre 1998 e 2001. Eu tinha acabado minha banda de hard rock na época e estava sobre o santo impacto do Awake e do Falling into infinity, do Dream Theater,  e resolvi que era hora de partir pra um lance mais elaborado. Nessa época eu montei uma banda que se chama Blessed.  Tentei varias formações. Fizemos alguns shows mas nada de alçar voos mais altos. Prog Metal é um esporte caro e na época não dava pra sustentar a estrutura básica sozinho. Depois de anos, eu e uma parte da ultima formação resolvemos começar um projeto pra tocar musicas de anime. Montamos com outro baterista e vocais a banda Tatsu. Fomos até onde deu nesse ramo. Tocamos com os principais artistas Japoneses que vieram ao Brasil e tocamos nos melhores horários nos eventos mais disputados. Mas o publico do anime não se relaciona com a banda, mas com o desenho. E como é praticamente impossível por uma música sua de soundtrack de um anime resolvemos retomar o Prog Metal. Ressuscitamos as músicas antigas, arrumamos um batera que aguentasse o tranco e surgimos com o conceito da OPUS V. Daí só faltou o vocal adequado.

Rafa: Conheci a banda na época do concurso para novo vocalista. Nós vimos o resultado e a escolha super acertada (na minha opinião) do Paulo Henrique. Como foi o processo de escolha e quais critérios vocês usaram pra decidir quem seria a voz do Opus V?

Passamani: Primeiro é bom ressaltar que muita gente boa mandou vídeo. Recebemos cerca de 50 audições. Algumas, claro, foram bem engraçadas, mas recebemos muito material de qualidade. Num primeiro momento, a maneira de se portar frente à câmera eliminou muita gente. Queríamos ver postura de front man nos vídeos. Em segundo lugar, todos os finalistas mandaram muito bem. Contudo, algumas eliminações na final se deram por conta de nervosismo dos candidatos. Já que queremos alçar voos altos, estar no controle da situação é pré-requisito. O Paulo foi um dos que se mostrou mais tranquilo. Por último, procurávamos uma personalidade vocal. Um timbre que fosse reconhecido facilmente e que não fosse simplesmente mais um “Vocal agudo de Prog Metal”. Quando o Paulo abriu o vozeirão na final, sentimos que era esse O cara pra banda.

Rafa: Muitos artistas acabam plagiando outros nesse processo de “buscar referências”, chegando a usar passagens inteiras “Ipsis litteris”. Como você encara esse tipo de processo de composição? Até onde é referência e até onde é cópia?

Passamani: Essa é uma pergunta bem interessante. Uma olhada pra trás na história da música e você vai ver que citar passagens inteiras de outro artista era norma e até uma forma de homenagem, e o artista citado ficava até mesmo lisonjeado com tal homenagem. Contudo a música se transformou em bem de consumo, e como tal, tem fortíssimo o conceito de propriedade, beirando o industrial. Dentro disso nasceu o conceito de “plágio”.  E nem sempre foi assim. Posto isso, vamos ao assunto propriamente dito. É praticamente impossível depois de, sei lá, 400 ou 500 anos de música tonal, 150 de musica atonal , em instrumentos temperados (com 12 notas apenas) que não se esbarre em  trechos similares baseados em suas matrizes musicais na formação dos sons. Até mesmo ícones de nosso estilo, como Dream Theeater, tem trechos praticamente “copiados” de artistas mais antigos. São notórios os casos do Deep Purple e Led Zeppelin, verdadeiros “homenageadores”. Contudo, no caso do DT, eu percebo que os fãs em geral parecem “blindar” a banda nesse aspecto e se algo sai parecido demais vira plágio automaticamente. Isso é tão serio que eu tive que abandonar um riff que eu fiz em 1993 (e antes do DT, que lançou em 1995) por causa disso. Não revelo nem por reza qual riff foi (rsrsrsrsrs). Mas eu tenho testemunhas vivas do dia em que criei, hehehe. No mais, acredito que uma coisa musical sempre vai acabar se parecendo com outra. Tenho medo dessa neopatia em música, essa necessidade do ”novo” a qualquer custo. Isso já matou muitas bandas boas, que na ânsia de se renovar a todo custo, sacrificaram aspectos importantes que definiam a própria banda. Enfim, impactos de uma sociedade que vende e compra de tudo. Até arte, que supostamente não deveria ter preço.

Rafa: Montar uma banda de prog no atual cenário brasileiro é um desafio? Como ficam as coisas no campo profissional (não tocando apenas por diversão ou hobbie)?

Passamani: Uma missão quase impossível, eu diria. Como disse no começo da entrevista, “um esporte caro”, tipo Polo. Você precisa do equipamento, 2 cavalos, um estábulo pra guarda-los e trata-los e transporte pra tudo. É tenso. Todo mundo faz outra coisa além da OPUS V.  Eu sou professor de guitarra e tenho um estúdio. O Dio, além de tocar como sideman, também faz gravações. Lufe é funcionário publico. O Paulo e “freela” na noite também. Nosso baixista também trabalha com outra coisa. Mas nada que muito trabalho sério não mude o quadro no país do futebol e das bandas gringas.

 

Rafa: A música progressiva tem várias vertentes e é extremamente rica e diversa. Falando sobre o Prog Metal, como você faz pra mesclar a agressividade com o experimentalismo sem que nenhum fique em segundo plano?

Passamani: Outra excelente pergunta. O Termo “Prog Metal” nunca esteve tão em alta como nos dias de hoje. Tudo é Prog Metal. Todos são Prog Metal. Já tem até “Power Prog Metal” (seja lá o que for isso). Mas na prática , na minha humilde opinião, o que se vê é um bando de banda de metal (melódico, thrash, death, crossover etc.) tocando em tempo quebrado e com 7 cordas ou afinação alternativa.  Mais “metal” do que “prog”. Todo o lirismo, clima e experimentalismo do progressivo praticamente não existe. Todo mundo tocando complicado o tempo inteiro. Tem gente que acha que Meshuggah é Prog Metal . Eu AMO Meshuggah, mas passa longe de prog. Poderia ser um “math” metal por conta da complexidade rítmica. E é ai que as coisas se confundem.  No rock progressivo um dos paradigmas rompidos foi o do ritmo, dai é comum o uso recorrente de formulas de compasso e células rítmicas atípicas. Mas o prog não para por ai. Tem o clima, tem as harmonias, tem o flerte com o atonalismo, com o serialismo. Mas como dizer pra um cara que só ouve Slayer, Iron Maiden, Mettalica, e Dream theater, e nunca ouviu Pink Floyd, Gentle Giant, ELP, Yes, que o que ele faz não é Prog Metal? É o que eu sempre digo nos meus workshops: “Quer fazer Prog Metal? Pare de ouvir DT um pouco e vá escutar o que eles escutam. De Mozart a Slipknot. De Genesis a Meshuggah, de Pink Floyd a Canibal Corpse. E no final… vai sair DT do mesmo jeito HEHEHEH!!”.

 

Rafa:Falando um pouco do seu começo na guitarra, como foi que você começou a tocar?

Passamani: Rapaz, eu comecei em 1987 no violãozinho a lá Legião. Em 1989 eu fui ao cinema e assisti “A Encruzilhada”. Entrei violonista e sai guitarrista. Comecei a perseguir o instrumento e a estudar freneticamente. Nunca parei. Tive até um problema sério na mão por conta disso. Mas já estou resolvendo graças a Deus.

Rafa: Nos primeiros anos de música, quais eram seus artistas favoritos?

Passamani: Bom, desconsiderando esses 2 anos de violãozinho, quando eu comecei sério no instrumento eu era fanático por Eddie Van Halen , Steve Vai, Yngwie Malmsteen, Stryper e Racer X.

Rafa: O que você costuma ouvir quando está em casa?

Passamani: Absolutamente de tudo! Tenho uma discografia que vai de Bach a Mortification, de Slayer a Ivan Lins. Eu tento casar meu humor. Tem dias que estou pra Geroge Benson. Noutros estou pra Pantera, noutro dia Journey e assim vai. Essa semana eu escutei o Requiem de Mozart todos os dias.

Rafa: 2013 já começou na brutalidade! Quais são seus planos pra esse ano?

Passamani: Esse ano sai o disco do Opus V. O EP já saiu e está sendo muito bem recebido.  Estamos negociando algo na Europa e Ásia pra tão logo o disco fique pronto. Já recebemos dois convites pra distribuição na Europa e EUA.  E tem duas surpresas legais aí pra rolar que num posso contar agora.

Bate bola:
Um guitarrista.
Steve Vai
Uma música do metal nacional.
Angra  – Late Redemption
Um sabor de pizza.
Califórnia
Uma mania.
Prestar mais atenção nas críticas do que no elogios.
Um sonho.
Pagar minhas contas e viver decentemente só da minha musica autoral.
Uma música sua.
OPUS V –  The Voice e Lovers Luv (solo). Empate técnico.
Uma memória.
Estar abraçado fortemente ao meu filho em frente ao caixão da minha mãe.

Rafa: Brother, valeu de coração pelo seu tempo. O espaço é seu pra dizer o que quiser pro pessoal que acompanhou nosso papo até aqui.

Passamani: Obrigado ao ProgPizza pela oportunidade e pelo espaço. Pra todos os fãs de Prog Metal do país e do planeta eu peço o seguinte: Deixe a OPUS V morar no seu mp3 player por um mês. Se não gostar mesmo pode deletar pra sempre. Mas dê o beneficio da dúvida. Faça VOCÊ a critica pessoal à banda. Existe muito preconceito, inveja e ego no universo do Prog Metal. Tire suas conclusões. Bandas novas podem te surpreender. E lembre-se: progressivo é progredir, é romper as fronteiras… Um Grande Abraço.

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