Review: Unpuzzle!

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A primeira vez que ouvi o Unpuzzle!, primeiro álbum do Maestrick, foi algo… estranho. Eu comprei o CD assim que saiu pois havia gostado muito do EP que havia no site deles (e ainda há, neste link). Gostei pois era diferente, era novo. E pra minha surpresa, o restante do CD era ainda mais diferente, e, como toda em “mudança”, a gente estranha. Minha primeira reação foi “não entendi”, mas eu não consegui me contentar com isso. Havia algo naquelas músicas todas, havia algo nas artes, nas letras, havia algo na personalidade daquele trabalho que não permitia que eu me conformasse com aquele “não entendi”. Eu precisava explorar o trabalho em cada detalhe pra entender ele completamente, e é aqui que começa essa review.

O Unpuzzle! é um álbum íncrível que passeia por diversas vertentes do metal e por alguns ritmos “pouco usuais” no estilo. É um disco pra ouvir com carinho, apreciando cada trecho como se deve. O projeto gráfico é interessante pra caramba, e climatiza o disco perfeitamente (possui, inclusive, uma capa alternativa). Ele se torna parte do CD, e ouvir as músicas sem ter o digipack é o mesmo que ouvir todas as músicas pela metade. A temática do álbum fala sobre um museu, e assim como num museu, você deve prestar atenção aos detalhes das obras pra poder aproveitar o passeio. Essas são minhas impressões principais de cada faixa:

H.U.C: Unpuzzle! começa com uma porrada nos tímpanos. As linhas progressivas me agradam bastante, e a ambientação de cada pedaço foi muito bem feita por cada um dos músicos. H.U.C. apresenta uma sinergia musical enorme, principalmente nos solos (que são de derrubar o sabiá do puleiro). O virtuosismo é equilibrado com os diferentes ritmos e técnicas vocais utilizadas, tendo alguns extremos, como a calma, a fantasia e a agressividade. Imagino que essa música deve ganhar bastante força ao vivo.

Aquarela: Considerada por alguns o primeiro clássico da banda, Aquarela é uma dessas raras canções compostas com muito carinho. Você percebe esse cuidado em cada trecho, sejam os mais suaves, sejam os mais fortes. Eu deveria recomendar que você escutasse diversas vezes pra perceber cada nuance, mas acredito que a música te convida a fazer isso por si só. Os pontos de destaque, pra mim, são o coral estilo Elvis, o belíssimo refrão e o final com um toque todo especial. Tenho certeza que Aquarela ainda vai marcar a vida de muita gente com sua complexidade que é resumida em uma beleza simples e boa de interagir.

Pescador: Essa música possui vários pontos interessantes. Ela não é uma música de metal (apesar dos momentos com guitarras, toda a canção é construída com ritmos brasileiros, no melhor estilo Holy Land); Ela é cantada inteiramente em português; e foi feita em homenagem ao avô do vocalista Fabio Caldeira. Pescador tem um ritmo aconchegante, e uma letra com bastante poder reflexivo. Ela retrata uma vida simples e feliz apesar de todas as complicações impostas. Me fez refletir sobre o quanto a gente acaba se limitando, mesmo tendo tudo que precisamos bem ao nosso lado. O fato de não ser rock pesado e nem cantada em inglês reforça as intenções da banda em fazer algo diferente, que chame a atenção, e Pescador foi uma puta sacada nesse sentido.

Sir Kus: Curtinha, ela conta mais um pedaço da história do disco e já nos coloca no clima da música seguinte. Achei muito interessante o uso das linhas musicais circenses. É algo que eu realmente não esperava ouvir (apesar do nome da faixa).

Puzzler: Achei uma das faixas mais descontraídas do Unpuzzle!. Além da letra engraçada, que fala de um personagem bastante excêntrico, Puzzler tem linhas instrumentais bem escritas e pensadas. O walking bass foi muito bem colocado, e a interpretação vocal também merece destaque. Apesar do clima ligeiramente circense, a música conta com certo peso, o que dá uma mistura muito bacana.

Disturbia: Sem dúvida é a faixa com maior carga de tensão. Com muito peso e agressividade, ela tem uma letra igualmente perturbadora, mas que também me fez pensar. A estrutura e a harmonia estão impecáveis e, além das sonoplastias bem sacadas, merecem sua atenção.

Treasures of the World: Aqui está outra que deve ganhar uma força descomunal ao vivo. Apesar de calma e com uma letra inspiradora, Treasures tem um refrão fortíssimo e emocionante. É difícil não se deixar levar pelo clima da música. O trecho vocal com um mantra também é outro ponto de destaque, e foi algo que eu achei bem criativo.

Radio Active: O começo da canção tem um pequeno trecho de Rosa de Hiroshima, do Secos & Molhados, que se encaixa bem com a proposta da letra, que fala de destruição de maneira “lúdica”. O groove é o grande destaque de Radio Active, e a interação das guitarras com o baixo ficou fantástica. Talvez seja uma das faixas mais interessantes do disco, justamente por englobar um emaranhado enorme de influências de uma maneira coerente e bem construída.

Smilesnif: Gosto da maneira como a história do CD é contada nessa faixa. Ela fala de dois dos protagonistas, que são seres de tinta. O refrão é emocionante, e a interpretação vocal é boa parte desse “efeito”. A letra de Smilesnif tem papel importantíssimo no disco, e foi justamente o finzinho dela que me fez querer entender esse disco a fundo. “Don’t be fooled by what you see at the first sight”.

Yellown of the Ebrium: Poucas vezes tive a chance de ouvir uma música tão bem interpretada quanto essa. Yellown fala sobre um personagem que acorda bêbado e conforme ele bebe durante o dia, vai ficando sóbrio. A canção começa de uma forma e termina de outra completamente diferente, passando por diversas nuances, inclusive uma pequena incursão pela MPB cantada em português e com a participação de vocal feminino. Essa faixa deixa bem exposto o lado teatral da banda, algo realmente fascinante e cada vez mais difícil de encontrar nas bandas de hoje em dia.

Lake of Emotions: A suíte progressiva do Unpuzzle! tem cerca de 21 minutos e é um resumo do disco. Todos os elementos inovadores que você descobriu durante sua audição são relembrados aqui e somados com um toque de sentimentalismo muito bem posto. Minha parte favorita é a “Level Eight and a Quarter”, onde é montada uma atmosfera surpreendente e realmente emocionante, além de possuir um dos solos de guitarra mais bonitos que já ouvi. Chega a ser uma faixa indescritível por alguns momentos, o que reforça meu pedido para que você realmente ouça o Unpuzze! com o coração, se colocando como fã de boa música, independente de vertentes.

Conclusão: O Maestrick, mesmo com um disco “controverso” à primeira audição, acertou em cheio, e fez, em minha opinião, um dos melhores álbuns do ano, mostrando a música como arte, e não como mercadoria ou como um som “encomendado” pelos fãs. A sinceridade e qualidade desse trabalho são realmente incríveis. Falando dos músicos, os vocais e pianos de Fabio Caldeira são muito bem trabalhados e criativos, com uma personalidade e interpretação realmente marcantes; Os baixos de Renato Somera (vulgo Montanha) são técnicos e colocados com bom gosto, inclusive na timbragem mais aguda, que somou muito para a personalidade do Unpuzzle!; Heitor Matos foi extremamente competente e criou algumas das linhas bateria mais criativas que já vi num álbum de metal. É uma viagem à parte ouvir o disco prestando atenção em cada detalhe da bateria; Danilo Augusto e Maurício Figueiredo foram coerentes nas escolhas de timbre das guitarras e também conseguiram colocar os instrumentos de maneira criativa, embora um pouco mais coesa do que estamos habituados no estilo. Todos os solos melódicos me impressionaram bastante.

Sem dúvida, o Maestrick tem tudo pra ser uma das grandes bandas brasileiras. Numa época de trabalhos tão iguais, eles mostraram que pode-se ser diferente criando uma identidade visual e sonora única e mantendo a qualidade musical e a paixão pela arte.

Site do Maestrick: www.maestrick.com

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